Após dois anos, Ocupa Ponte Torta encerra suas atividades

Movimento cumpriu seu objetivo e repassa, aos órgãos públicos, sua experiência de gerenciamento

Jundiaí, dezembro de 2017 – O evento Ocupa Ponte Torta, criado em dezembro de 2015, está encerrando suas atividades de ocupação cultural na praça Erazê Martinho, ao lado do monumento da Ponte Torta.

O  movimento, que teve por objetivo valorizar o patrimônio histórico, fomentar o respeito ao espaço público e reconhecer a arte autoral da comunidade jundiaiense, entende que seus objetivos foram alcançados e agora está repassando à cidade sua experiência de gerenciamento do que se tornou um novo espaço cultural, onde já ocorrem, inclusive, diversos outros eventos.

As ações do Ocupa Ponte Torta ocorreram sempre no último domingo de cada mês, data já “reservada” no calendários de muitos artistas locais que se organizavam, de forma colaborativa, para se apresentarem. A última edição oficial do evento foi realizada em 29/10/17. E, assim, inspirados nesse movimento, outros domingos do mês começaram a ser ocupados por outros eventos.

A luta por buscar um espaço vivo e presente na vida da cidade fez o evento sempre manter-se como algo espontâneo. Mas o crescimento do local causou iniciativas sem os cuidados necessários. Por esse motivo, o Ocupa Ponte Torta já encaminhou para os órgãos municipais algumas sugestão de critérios para esse gerenciamento, no sentido de continuar estimulando o aprimoramento das políticas públicas nesse sentido.

Veja os critérios recomendados:

1)    Compromisso dos organizadores de eventos com esses princípios, inclusive com reforço sonoro ao público durante os mesmos – inclusive para colaboração contra acúmulo de lixo.

2)    Gerenciamento de agenda e de acesso às fontes de energia pela Unidade Gestão da Cultura.

3)    Mapa orientado de palco, com caixas de som voltadas para o eixo aberto da avenida José do Patrocínio.

4)    Preferência de ajuste de som na equalização e não no volume.

5)    Proibição de entrada de veículos na praça, a não ser para carga e descarga.

6)    Presença de barracas somente já licenciadas pelo setor de abastecimento.

7)    Montagem das barracas, com fitas de sinalização se necessário, formando uma barreira simbólica para pessoas evitarem o risco da mureta sobre o rio Guapeva – enquanto se estuda solução fixa.

8)    Manter boa vizinhança com os comércios vizinhos, avisando antecipadamente das agendas.

9)    Buscar sempre um ambiente para o convívio de diversas gerações, inclusive crianças.

10)   Parceiros de barracas, ao mínimo, apenas de pessoas com licença da atividade, como no caso da rede de varejões.

Diante disso, os envolvidos na organização e colaboração espontânea do evento agradecem todos aqueles que prestigiaram e apoiaram suas edições, bem como os artistas que ali demonstram sua arte.

 

Entenda o Ocupa Ponte Torta

O evento Ocupa Ponte Torta surgiu em dezembro de 2015, poucos dias antes do Ano Novo, em um encontro dos amigos (em ordem alfabética) Flavio Gut, José Arnaldo de Oliveira e Roberto Fernandes na praça do monumento que estava com o restauro recém-inaugurado. A ideia inicial era ser apenas mais uma comemoração desse fato.

Aos poucos, diversas outras pessoas passaram adotar a iniciativa de curtir um espaço público. Uma das coisas que estimulavam o processo era o método usado no projeto de intervenção no monumento, que usava o conceito de zeladoria comunitária e de atribuição de valor social defendidos por Antonio Sarasá, dado por inúmeros depoimentos de história oral da comunidade.

Eram histórias sobre as lutas contra a demolição da ponte na década de 80 (registrada até em quadrinhos), a presença simbólica até em marca de bebida comum no século 20, as lembranças individuais e familiares de uso pedestre da ponte, a existência de um bloco carnavalesco em homenagem a ela e principalmente seu papel indicativo da mudança industrializante e migratória da cidade em 1888, quando foi concluída com 50 mil tijolos.

Ao mesmo tempo, uma adesão de jovens e de artistas ao evento mostrava estar conectado ao momento.

A repercussão natural disso nas redes sociais fizeram com que entre um domingo e uma quarta-feira centenas de pessoas aderissem à proposta de ocupação cultural com equipamentos de som emprestados, instrumentos compartilhados e tendas cedidas para o evento, fazendo a viabilidade de ser mensal.

E o que tudo isso tinha a ver com uma iniciativa em nome do movimento Pedala Jundiaí? Tudo era parte de uma busca de mudança de cultura – no caso, a mudança da cultura de mobilidade para uma opção de baixo carbono, a mudança da cultura destrutiva da cidade para uma cultura de valorização do patrimônio histórico e do convívio no espaço público, a mudança de uma cultura pasteurizada pela mídia para uma cultura de valorização dos costumes, da história e da arte da própria cidade.

Foram dois anos de eventos com talentos conhecidos ou novos. Com dezenas de bandas, especialmente da geração mais nova, e também artistas consolidados das mais diversas variantes do rock e também hip hop, teatro, choro, blues.

Pelo lado da arte autoral, festivais e eventos independentes se multiplicaram pela cidade e o evento muitas vezes foi palco de vitrine para novos nomes ou registros gravados de bandas mais firmadas no cenário independente, tendo também a dimensão de evento midiático.

Os envolvidos no Ocupa Ponte Torta nunca tiveram dúvida de que Jundiaí é uma das maiores concentrações de competências artísticas de todo o Estado de São Paulo. E o caráter independente dessa manifestação foi preservado até durante a campanha eleitoral de 2016, quando foi suspensa nos meses mais inflamados do debate.

Os principais objetivos do Ocupa Ponte Torta foram reforçados nesses dois anos de existência. Com mais apoio voluntário, como da equipe Pelé Som, a qualidade sonora havia também dado um salto.

O ciclo Ocupa Ponte Torta se completou, mas permanece a defesa de seus mesmos princípios em futuros projetos.